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Quinta-feira, 14 de Novembro de 2019, 17h:08

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O terceiro dia do XIII Festival Velha Joana

Para o festival, se a jornada dominical começou com a aventura do herói Pedro Malasartes, terminou com o encadeamento de três potentes espetáculos sobre o feminino


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Texto por Wuldson Marcelo - Revisão por Santiago

Nesse último domingo, dia 10, deu-se seguimento à programação do 13ª Velha Joana, em Primavera do Leste. Um dia importante para a cidade, marcando a solenidade de inauguração do Centro de Atendimento ao Turista, com a presença de vários agentes políticos e civis. A chuva caiu, mas antes do evento, portanto tudo ocorreu dentro do esperado.

Para o festival, se a jornada dominical começou com a aventura do herói Pedro Malasartes, terminou com o encadeamento de três potentes espetáculos sobre o feminino, cada qual sublinhando aspectos que oprimem e libertam a mulher neste ainda incipiente século XXI, seja por intermédio de um corpo que sofre as evidências do patriarcado, seja pela descida de uma mãe ao inferno em busca do filho levado pela Morte.

Diferentemente dos primeiros dias de Velha Joana, a programação se espalhou pela cidade, dialogando com os espaços públicos e levando as espectadoras e espectadores a perceber os locais de encenação como territórios artísticos e de entretenimento.

O primeiro espetáculo ocorreu no Lago Municipal, encenado pelo Teatro Faces, de Primavera do Leste. “Pedro Malasartes e o Couro Misterioso” traz Pedro, o popular burlão invencível dos contos portugueses e da cultura brasileira, em uma aventura para conseguir a fortuna prometida pelo rei e pela rainha àquele que adivinhasse do que é o couro que ele carrega nas mãos. Juntando um grupo estranho, mas repleto de talentos mais estranhos ainda, Pedro chega ao castelo para cumprir seu objetivo — e fugir da punição, caso a resposta esteja incorreta, que é a de ter a cabeça cortada. Um misto de commedia dell’arte e de Ariano Suassuna, mas com autenticidade e selo mato-grossense.

Uma história com um timing cômico perfeito, em que o elenco, além dos improvisos e dos ganchos oportunos oferecidos por uma plateia participativa, aproveita tudo que o texto de autoria de Wanderson Lana pode proporcionar.

Em seguida, os amantes do teatro se deslocaram até a Alameda Porto Seguro para assistir à peça “Cocorobó”, da Turma IV — Polo Centro Cultural, de Primavera do Leste, pela Mostra Panorama. Um espetáculo que parte da história de Cocorobó contada pelos moradores, que se sentem mal pelo apagamento de seu passado, mas “felizes” pelo desenvolvimento da cidade. Cocorobó, na verdade, é a antiga Canudos, o que dá ensejo, além do vislumbre da vida no interior, a uma pequena crítica à ideia de progresso que se realiza pelo esquecimento e invisibilização de culturas e povos.

A rica história de Cocorobó é narrada tendo como referência algumas produções da literatura e do cinema, como “Lisbela e o Prisioneiro”, filme de 2003 dirigido por Guel Arraes, que é adaptação da peça homônima de Osman Lins, e “Abril Despedaçado” (2001), obra cinematográfica de Walter Salles, que se baseia no romance do albanês Ismail Kadare. Inspirado no primeiro, o espetáculo se nutre do romance entre Antônio ou Mané Gostoso (Bryan Robert) e Helena (Ianni Rosa), e de “Abril Despedaçado”, a encenação captura a disputa sangrenta entre famílias que levou muitos à morte no sertão. Com dramaturgia e direção de Jeisy Sá e Sabrina Nathani, a peça, apesar dos temas subjacentes, é leve e muito bem-humorada.

 

O terceiro espetáculo do dia ocorreu na Escola Municipal de Dança. “Todo Mês Sangra”, do Teatro Experimental de Alta Floresta, é uma encenação de dança tocante e visceral sobre a mulher contemporânea e sua luta contra o patriarcado. A interpretação é da atriz e bailarina Cassiane Leite, que nos apresenta, em um denso desempenho corporal, as facetas da violência cotidianamente direcionada à mulher, sejam elas físicas, patrimoniais ou psicológicas. O jogo que se estabelece é entre opressão e liberdade; a cada gesto ou movimento, há um retroceder e avançar, na busca de fazer o respeito vigorar plenamente na ordem do dia.

O espetáculo trabalha símbolos como a maçã do pecado de Eva, dando-lhe uma nova designação, representando o machismo, a figura do machista. Em um momento de silêncio, constrangedor e catártico por si mesmo, Cassiane, com o olhar, convoca/pede a ajuda da plateia para jogar na lata de lixo um vestido-símbolo das exigências e limites impostas às mulheres (uma vestimenta enfeitada com panelas, espátulas etc.), mas os espectadores permanecem inertes, sem reação, mais por temor da participação do que indiferença, até que uma jovem desce os degraus da miniarquibancada e atira com força o vestido na lata. Vínculo com a Outra e quebra das correntes. Um sublime espetáculo que denuncia a violência contra a mulher e homenageia as conquistas e histórias femininas.

A quarta apresentação do domingo dialoga com “Todo Mês Sangra”, já que em cena estão nove jovens atrizes, entre 12 e 17 anos (da Turma II — Polo Centro Cultural, de Primavera do Leste), a gritar seu “Manifesto”. O começo do espetáculo se dá no fundo do Centro de Tradições Gaúchas (CTG) Querência Distante, um terreno em que as meninas entram em contato com o sagrado feminino e abordam temas como violência, maternidade, menstruação, corpo, traumas etc. Não à toa, a peça transcorre em um Centro de Tradição, já que elas erguem suas vozes contra o conservadorismo, contra uma cultura que exige subserviência delas.

Em um segundo momento, muda-se o cenário, e a área de lazer, onde se encontra a churrasqueira, vira uma cozinha em que as adolescentes preparam comida com luvas de boxe e ferramentas para trabalho em madeira ou metal. Estratégica e simbolicamente, uma apropriação de objetos associados ao universo masculino para implodir uma atividade ligada à natureza feminina.

O quinto e último espetáculo do terceiro dia de Velha Joana foi “A Morte e a Mãe”, do Grupo Faces Jovem, de Primavera do Leste. Na verdade, tratou-se de um ensaio aberto, o primeiro contato com o público. A apresentação começa na Casa Branca e percorre a cidade, chegando a um galpão distante do Centro. Ainda que seja cansativo, o que instiga é a ocupação do espaço público e de vários ambientes como palco. Por isso o show fica por conta de Thalia Quintania, intérprete da mãe, que revela fôlego (já que precisa andar e correr pelas ruas do centro de Primavera) e recursos dramáticos que envolvem o espectador-caminhante em sua jornada para recuperar o filho dos braços da Morte (interpretada por Marcioni Neves).

Em sua busca desesperada, ela encontra a Madrugada, o Tempo, a Saudade, o Barqueiro e a Natureza. Todas exigem da Mãe algo em troca da informação do destino da Morte. Obstinada, ela aceita cada pedido, o que lhe custa sofrimento físico e a leva a praticar um ato contra a lei e a moral. A dramaturgia de Wanderson Lana é baseada no conto “A História de Uma Mãe”, do dinamarquês Hans Christian Andersen, e provoca a questão: o que uma mãe é capaz de fazer pelo filho? Talvez essa seja uma indagação imemorial, que mesmo em tempos vindouros colocará em cena o amor materno revelado tão somente pelos sacrifícios e pela disposição de se pôr acima do bem e do mal.

 

 

 

 

 

*Este texto é parte da cobertura especial do XIII Festival Velha Joana, realizado em Primavera do Leste (MT) entre 08 e 17 de novembro de 2019, para o qual o Parágrafo Cerrado foi convidado 

 *Fotografias por Fred Gustavos

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