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SAÚDE /

Segunda-feira, 03 de Agosto de 2020, 06h:30

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25 profissionais de enfermagem já morreram de Covid-19 no Mato Grosso,4 eram de Primavera

Keldiston de apenas 22 anos, morreu no dia 25 de julho em Primavera do Leste


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Wellington Camuci

726 profissionais de enfermagem de Mato Grosso já se infectaram pelo novo coronavírus, destes, 25 não venceram a batalha e perderam a vida. As duas últimas vítimas morreram na madrugada desta quinta-feira (30), em Tapurah e em Sorriso. Estes são os profissionais que estão na linha de frente, seja nos hospitais, nas Unidades de Pronto Atendimento ou nas unidades de saúde e enfrentam as dificuldades perante a pandemia para salvar outras vidas. Entre as mortes registradas no estado, quatro delas foram de profissionais que atuavam em Primavera do Leste.

Enfermeiros e técnico de enfermagem atuam juntamente com médicos, fisioterapeutas e toda uma equipe para cuidar da população que está acometida pela doença. Antônio César Ribeiro, presidente do Conselho Regional de Enfermagem de Mato Grosso – Coren-MT, reforçou a importância destes profissionais no combate a pandemia. “Eu começo falando para você da responsabilidade consciente da enfermagem, do compromisso ético, moral, legal que temos de estar à frente da pandemia, nós somos a profissão do cuidado”, disse.

Para ele o momento que o Brasil enfrenta é de extrema fragilidade por ser uma doença causada por um vírus novo, o novo coronavírus. “A gente conhece muito pouco do comportamento do vírus ainda, nós tivemos, por exemplo, na Ásia uma doença que atingia idosos, na Europa também, principalmente Itália, França Espanha, e nós vemos no Brasil ela não escolhendo idade, a exemplo disso, tivemos o rapaz de 22 anos, técnico de enfermagem que atuava no município de Primavera”.

A morte citada pelo presidente do Coren é Keldiston Kelps da Silva Farias Oliveira de 22 anos que morreu na manhã de sábado (25-07). O profissional trabalhava na Estratégia de Saúde da Família do Jardim Luciana e era plantonista na Unidade de Pronto Atendimento – UPA de Primavera do Leste.

Antônio César alerta que o que se sabe com segurança em relação ao vírus são os mecanismos de controle, utilização de Equipamentos de Proteção Individual – EPI’s e isolamento Social. “Infelizmente o isolamento social ele barra numa questão que é econômica e o poder público parece valorizar mais a economia do que a vida das pessoas e, no que diz respeito a enfermagem, parece um descaso, parece que não tem problema perder porque as perdas elas são recorrentes”, disse o presidente.

Ele ressaltou ainda sobre a quantidade de profissionais infectados pela doença, “nós temos hoje notificados, que testaram positivo para Covid-19, 726 profissionais de enfermagem no estado de Mato Grosso, 25 óbitos, ou seja, é uma situação alarmante, dramática”.

Mato Grosso, até quinta-feira (30), registrou 50.538 casos e quase 1.800 mortes. Ainda existem 301 pessoas em Unidade de Terapia Intensiva – UTI. “No mesmo momento em que você vê esse cenário, você vê o poder público abrindo a economia, abrindo os serviços, inclusive os não essenciais. Tivemos aí outro dia no Facebook a fala de uma parlamentar agradecendo a Deus pela abertura do comércio como se o problema tivesse na economia e não na vida das pessoas que estão sendo perdidas”, disse o presidente.

A fala em questão é da deputada Janaina Riva que publicou um vídeo nas redes sociais parabenizando o governo estadual pelo Decreto 573 de 24 de julho, que altera o Decreto 522/2020. Neste decreto, de forma impositiva, os municípios são obrigados a liberar as atividades consideradas não essenciais. Para decretar medidas mais restritivas, o poder público municipal deve comprovar a necessidade das ações.

Antônio César disse que, para a classe, o cenário da saúde é dramático “nós da enfermagem temos a clareza do nosso compromisso, mas, ao mesmo tempo, causa um ambiente de verdadeiro pânico porque você nunca sabe se você entra num plantão e é contaminado, se você sai ainda com saúde”.

Muitos profissionais temem também pelas famílias, que muitas vezes, acabam sendo contaminadas dentro de casa. “Temos as nossas famílias, então não é só a infecção do profissional, mas a gente acaba expondo toda a nossa família e as condições que a gente tem para trabalhar realmente não tem favorecido a nossa segurança”, relatou o presidente.

 

EPI’S PODEM NÃO PROTEGER O PROFISSIONAL, DIZ PRESIDENTE DO COREN

No início da pandemia, a correria para comprar Equipamentos de Proteção Individual - EPI foi grande. Diante de várias dificuldades para o poder público conseguir os equipamentos, várias denúncias surgiram de falta do material nos hospitais. De acordo com Antônio César Ribeiro, presidente do Conselho Regional de Enfermagem de Mato Grosso – Coren/MT, hoje existe o equipamento, porém, a qualidade é questionável.

“Através de denúncias e não são poucas, os equipamentos oferecidos hoje têm qualidade questionável, ou seja, você está usando uma máscara que na verdade não está te protegendo efetivamente. Isso para quem está lá do lado do leito com paciente adoecido, não é a mesma coisa de usar uma máscara para você circular dentro da sociedade”, ressaltou Ribeiro.

Além disso, o presidente disse que a quantidade de EPI recebido pelo profissional é insuficiente para a jornada de trabalho. “Estamos tendo muita notícia, muita denúncia do racionamento, ou seja, como não tem quantidade suficiente os profissionais recebem dois kits de equipamento de proteção para um plantão de 12 horas”.

Outro ponto destacado por Ribeiro é sobre a falta de profissional atuando na linha de frente. “Esses 726 profissionais que se afastaram do trabalho, eles não foram repostos de acordo com a necessidade e aqueles que permaneceram dentro do hospital tiveram toda a sobrecarga dobrada em razão da carência de pessoal. É um cenário desanimador, cenário alarmante e o resultado a gente está colhendo aí com esses óbitos cada dia crescendo mais”, disse o presidente.

Segundo ele, também existe a dificuldade de encontrar profissionais de enfermagem, como também de médicos. “Existe sim uma carência de profissionais de enfermagem, principalmente técnicos de enfermagem, enfermeiros até que nem tanto, mas essa falta de profissional também está relacionada ao desinteresse porque são contratos precários, não tem garantia nenhuma, nenhuma proteção social, baixo salário, estão oferecendo aí R$ 350 por plantão de 12 horas”.

A situação atual da saúde no estado não traz segurança para outros profissionais de enfermagem e esse medo dificulta ainda mais as contratações. “A pessoa nunca sabe se ela entra e não sai contaminada, cada vez que você tem a notícia de um profissional de enfermagem que morreu, o desânimo aumenta”, ressaltou.

Para o Coren, o governo demorou a agir frente a pandemia, sendo esse o maior erro. “Não ter planejado ações fundamentais, entre eles incluem aí a aquisição e disponibilização de Equipamentos de Proteção Individual, equipamentos para organização de leitos de terapia intensiva, capacitação das equipes, que inclui profissionais médicos, fisioterapeutas que também estão na linha de frente”, disse o presidente do Coren/MT.

Outro ponto destacado por ele que seria falha do governo foi a contratação de profissionais para atuar na linha de frente. “Também a questão das equipes, você ter número suficiente sabendo dessa questão da jornada, da sobrecarga, enquanto isso expõe o trabalhador, deveríamos ter planejado isso melhor”.

“Outra coisa que é fundamental que é essa questão do isolamento, nós sabemos que a Covid-19 é uma doença que tem que ser controlada através do isolamento social, porque é a única forma, é a prevenção e nós vimos aí a economia falar muito mais alto do que o direito à vida da pessoa no geral e, inclusive dos trabalhadores da saúde que obrigatoriamente estão à frente do controle da pandemia”, reforçou.

Por fim, o presidente do Coren/MT reforçou a importância da luta da classe. “Não se intimide frente as condições que não são adequadas, denuncie. O Coren tem atendido 100% de todas as denúncias que chegam até nós, quando a gente identifica irregularidades, são feitas notificações, quando as notificações não são atendidas, nós estamos entrando com as ações civis públicas para o Ministério Público Federal intervir junto as organizações”, finalizou.

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QUATRO SERVIDORES DA SAÚDE MORRERAM EM PRIMAVERA

Primavera do Leste registrou a morte de quatro servidores ou ex-servidores da saúde em decorrência do Novo Coronavírus. As primeiras mortes ocorreram em junho, José dos Santos, 67 anos e Joselita dos Santos, 65 anos, morreram nos dias 13 e 17 de junho, respectivamente.

Servidores municipais aposentados, José e Joselita eram irmãos e dedicaram a vida ao serviço da saúde municipal. José trabalhou em diversas unidades de saúde é era muito lembrado pelo trabalho desempenhado no antigo Pronto Atendimento Municipal – PAM.

José estava hospitalizado na UTI do Hospital Regional de Rondonópolis desde o dia 07 de junho e morreu na madrugada do dia 13 de junho. Ele apresentava problemas pulmonares.

Joselita era técnica de enfermagem também aposentada pelo município. Ela estava internada na UTI do Hospital Regional de Rondonópolis desde o dia 05 de junho onde morreu na durante a madrugada do dia 17 de junho em decorrência da doença.

Já em julho, o médico Marcel Baracat, 39 anos, morreu no dia 09 de julho depois de ficar internado na Unidade de Terapia Intensiva – UTI do Hospital São Benedito, em Cuiabá. Ele atuava em Primavera do Leste na Estratégia de Saúde da Família – ESF 8 do bairro Pioneiro. Viúvo, Marcel deixou três filhos de 6, 8 e 12 anos.

A mãe de Marcel, que também estava na UTI por causa da doença, morreu na noite do mesmo dia, já o avô dele morreu no dia 07 de junho, também vítima da doença.

O último profissional da saúde de Primavera do Leste a morrer de Covid-19 foi o técnico de enfermagem Keldiston Kelps da Silva Farias Oliveira de 22 anos que morreu na manhã de sábado (25-07). O profissional trabalhava na Estratégia de Saúde da Família do Jardim Luciana e era plantonista na Unidade de Pronto Atendimento – UPA de Primavera do Leste.

Keldiston era portador de comorbidades e desde o final de junho, ficou internado por três vezes até que no dia 18 de julho, ele foi internado na UTI do Hospital das Clínicas Primavera onde permaneceu até o momento de sua morte. Ele é o profissional mais jovem a morrer em decorrência da doença no estado de Mato Grosso.

 

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