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Segunda-feira, 29 de Junho de 2020, 06h:30

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Quando o luto se transforma em doença

Todo processo de luto tem um começo, um meio e um fim. Várias reações emocionais são despertadas


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Beatriz G. Rufato

Lidar com a perda de um ente querido não é tarefa fácil. Entretanto, o luto é um processo pelo qual, todas as pessoas deverão passar a fim de amenizar o sofrimento gerado pela ausência do outro. O problema ocorre quando essa fase natural se torna mais difícil que o habitual: o que chamamos de “luto complicado”.

 

Todo processo de luto tem um começo, um meio e um fim. Várias reações emocionais são despertadas, como tristeza, ansiedade, culpa e raiva. Isso é muito comum. A pessoa também pode, num primeiro momento, querer se isolar do convívio social. Em relação às alterações físicas, podem ocorrer sudorese, palpitação e fraqueza, já que o corpo fica sob pressão. A reação varia de pessoa para pessoa, mas não há como evitar o processo de luto.

Não existe um tempo certo para superar a perda de alguém, isso depende de cada pessoa, do modo como ela enfrenta e aceita a situação. Para alguns pode demorar meses, para outros, anos. O primeiro ano após a perda é o mais difícil, porque é nesse ano que ocorrem todos os primeiros aniversários sem a pessoa. Isso não significa que seja necessário um ano exato para superar a morte. Um processo de luto é bem-sucedido e finalizado quando a pessoa consegue superar a perda e seguir em frente. Não é que ela vai esquecer a pessoa, pois as lembranças e a ausência continuarão.

Quando o indivíduo não consegue passar por essa fase, ele entra no chamado “luto complicado”. Geralmente, isso acontece com pessoas que perderam entes de maneira abrupta, como em acidentes, tragédias e casos de suicídio e na morte precoce de um filho. Nesses casos, todo pensamento e ato estarão associados à perda, a pessoa não consegue se desligar. O problema é que, diante de um luto crônico, muitas vezes as pessoas querem medicá-lo para sanar os sintomas quando, na verdade, ele precisa ser ouvido.

Em contrapartida, há aqueles que agem como se nada tivesse acontecido e, alguns dias depois da morte, voltam a trabalhar e lotam a agenda de compromissos. Mas os indivíduos que agem assim precisam de cuidados especiais, pois ocupar-se excessivamente é uma maneira de fugir do problema.

Aqueles que têm algum familiar ou amigo muito doente podem começar a vivenciar o processo de luto antecipatório, antes da morte do ente. Dependendo do caso, esse pode ser um fator de proteção para que o familiar não entre no luto complicado. Porque as perdas progressivas vão acontecendo num intervalo de tempo considerável e assim ele vai se acostumando com a ideia de não ter mais aquela pessoa ao lado.

Em relação às cinco fases do luto (negação, raiva, barganha, depressão e aceitação), que já foram amplamente divulgadas, é difícil enquadrar o paciente em uma delas, pois às vezes ele pode passar por todas as fases ao mesmo tempo ou simplesmente não passar por nenhuma.

As reações ao luto não precisarão necessariamente de auxílio profissional, tudo irá depender da intensidade, da frequência, do tempo que pode durar e talvez o ponto que merece bastante atenção é se está interferindo na construção e vida da pessoa enlutada, ou seja, se ela está sendo prejudicada de forma significativa, no trabalho, estudos, saúde ou o abandono de si ou do meio. Nestas situações deve-se sim procurar um psicólogo para avaliação.

O luto não é uma doença ou síndrome a ser tratada ou curada, é um processo de perda a ser vivenciado por aquela pessoa e é muito particular, assim como a complexidade de cada caso.

 

Beatriz G. Rufato

Psicóloga

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