ARTIGO /

Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2016, 15h:57

A | A | A

O endereço da tristeza

Aprendi com João Maria, um velho pescador analfabeto, que a tristeza mora naqueles espaços vazios que ficam entre as coisas feitas pela metade


JJ Camargo

Na época em que foi operada, Maria Emilia trabalhava num salão de beleza havia mais de 20 anos. Soube depois que tinha sido demitida quando a nova gerente, em nome da revisão de custos, atualização de metas e planejamento estratégico — essas expressões meio abstratas que os empresários usam para se livrarem de empregados com mais de 50 anos —, entregou-lhe o aviso prévio.

Meio perdida, pensou em montar seu próprio salão imaginando o apoio de clientes antigos, mas foi surpreendida por um convite desafiador: trabalhar numa funerária como embelezadora de cadáveres.

E, então, se realizou.

No nosso reencontro, esbanjando saúde e entusiasmo, contou-me da tarefa insólita de transformar uma face de dor, desespero ou medo, em alegria, ou, pelo menos, em serenidade. Confessou-me que, às vezes, pressionada a devolver rapidamente o corpo, não conseguia o efeito planejado e se frustrava, mas outras tantas, varava noites insones para ser compensada por um rosto tão natural e amistoso que lhe estimulava a dialogar com o cadáver, sem cogitar que pudesse estar enlouquecendo. Muitos artistas, como se sabe, com graus variados de excentricidade, bateram longos papos com suas obras acabadas.

O nome desse sentimento? Realização pessoal.

Em 2004, num congresso no Algarve, visitei uma aldeia de pescadores portugueses perto do hotel e conheci João Maria, o decano da vila. Com olhos foscos por uma catarata visível, e a pele enrugada pelos 80 anos de exposição ao sol, ele era a simpatia materializada no convívio com uma penca de netos que o adorava e uma legião de turistas que se acercavam para ouvir-lhe contar o trabalho que dava construir artesanalmente a isca perfeita. E com a boca sorridente, mas o olhar desfocado, deixava-se fotografar.

Nosso primeiro contato tinha sido superficial, a conversa entrecortada e ruidosa deixara a sensação de desperdício. Voltei cedo no dia seguinte. Ele já estava sentado no seu trono, um banco de madeira lustrada, dentro de um barco velho, abandonado na beira da praia.

A empatia, esse sentimento que ninguém explica, foi instantânea. Conversamos muito antes que começassem a chegar os primeiros chatos avulsos e, ao me despedir, sabendo que eu voltaria para o Brasil no dia seguinte, presenteou-me com um conjunto completo de iscas, uma tralha enorme. Nesse momento, fui salvo por um dos netos que, percebendo meu apuro, disse: “Vô, sinto muito, mas o doutor não é pescador, e nós não podemos abrir mão de uma das suas iscas mais perfeitas!”.

Com o olho mareado, um terço chateado pelo presente interrompido, mas dois terços encantado pela importância que os netos ainda lhe davam, me disse: “Desculpe, doutor, mas esses miúdos não me largam de mão. Nem sei o que será deles quando me for!”.

Chamou a filha, que montava uma tenda perto dali, para que, ao menos, servisse-me um suco. Soube por ela, então, que há muito os netos aderiram à pesca industrial, mas ninguém tinha coragem de contar ao avô da inutilidade das suas iscas.

 

Segredou-me também que a cara sorridente ou amarrada do pai era o jeito de ela saber o quanto tinha sido perfeito, ou não, o seu trabalho irretocável e inútil. Aprendi com João Maria, um velho pescador analfabeto, que a tristeza mora naqueles espaços vazios que ficam entre as coisas feitas pela metade.

0 Comentário(s)
Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!

MAIS Primavera Do Leste

A diferença entre ética e moral

Moral é o conjunto de regras que orientam o comportamento do indivíduo dentro de uma sociedade

Conflitos interiores

O homem vive em constante conflito consigo mesmo

MAIS LIDAS NO CLIQUE F5

MAIS LIDAS MATO GROSSO


Abaixo reportagens especiais e exclusivas para os assinantes do Jornal O Diário

VANTAGEM

Conheça as vantagens oferecidas no CLUBE DO ASSINANTE DO O DIÁRIO

descontos em medicamentos, mensalidade de academias, compra de óculos, corrida de moto táxi, compra de gás de cozinha e até mesmo na conta do barzinho do final de semana. Esses são alguns dos benefícios oferecidos.

Nome ou atividade:

Bairro ou logradouro:

Produto:

Buscar em:

Edição impressa
imagem
os maiores eventos e coberturas

26/06 - Em cerimônia pontuada por bom gosto e emoção na Igreja Matriz, Thayara Rodrigues & Duan Pilonetto receberam a bênção matrimonial no último sábado, 22. Impecavelmente vestida pelo estilista mais famoso do Brasil, Lucas Anderi, a noiva emocionou os convidados logo antes da sua entrada com depoimento para o noivo. Já ele usava um terno Camargo, sendo que o estilista fez questão de colocá-lo em suas redes sociais. Com um flashmob feito pela Musique Casamentos, cantores e violinos surgiam entre os convidados enquanto as alianças eram conduzidas pela avó da noiva ao altar. Queima de fogos iluminaram a noite ao final da cerimônia religiosa. O salão do Centro de Eventos Primacredi foi transformado com suntuosa decoração por Anna Carolina para receber o em torno de 500 convidados para a celebração da boda. O buffet sempre agradável de Dulce Aguiar, (Roo) servia de volantes como as panelinhas quentes até um buffet de comida japonesa requintado, na ímpar noite que foi adoçada pelas receitas de Claudete Zandoná. A animação da festa ficou a cargo da Banda Bis de Cuiabá, além do receptivo da Musique com apresentação do Brass Live durante a festa que foi até as 6 da manhã. Um dos pontos altos da noite foi a surpresa feita pelos padrinhos que interromperam o final da apresentação dos noivos, surpreendendo com todas as músicas que os recém casados gostam e fazendo a festa já pegar fogo, mais uma das brilhantes ideias do Cerimonial Fabiano Fernandez que produziu e atendeu todo o evento com a mesma maestria de sempre, já conhecida e aprovada. Confira mais flashes by Marcello Holanda . Fotos oficiais Fares Rames.

Você é a favor ou contra a revitalização das Avenidas de Primavera?
A favor.
Contra.
Não tenho opinião formada sobre o assunto.