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Sexta-feira, 16 de Agosto de 2019, 07h:00

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Narrativa das trincheiras da profissão professora e professor da escola pública

O movimento foi se prolongando e na medida em que as dificuldades foram aumentando parte da sociedade estenderam a mão


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Gizeli da Costa Leão

 

Ao participar do movimento paredista eu tinha consciência que seria um processo difícil, porém, a dificuldade faz parte da vida, pois viver é uma ousadia e lutar contra o sistema é uma rebeldia necessária para ocupar nosso espaço e fazer o enfrentamento com esse projeto ultraliberal em alinhamento em nosso país.

No entanto, nas trincheiras do movimento uns ficaram para trás, outras e outros se arrastaram, mas chegamos até o final onde as últimas forças materiais e espirituais permitiram nos manter de pé. Porém, no caminho, apesar do sofrimento causado pelo esforço e o cansaço, não soltamos a mão de ninguém. O movimento foi se prolongando e na medida em que as dificuldades foram aumentando parte da sociedade estenderam a mão e compartilharam conosco suas alegrias, o pão de cada dia, um afago, um sorriso e às vezes uma incompreensão, mas isso também faz parte do processo.

Recebemos contribuição de pessoas que passaram por nós no semáforo, do vendedor de picolé, de colegas de profissão até mesmo de outros estados, municípios e tantos outros rostos desconhecidos, porém, a palavra de ordem era: não desanime, a vitória será de vocês. Nesse período de tempo compreendi que posso viver com pouco, trabalhei o desapego, a partilha, a esperança, a solidariedade e a união, mas junto veio à decepção, porque nem tudo são flores, há espinhos e são dolorosos e como são. Perdemos por aqueles que não se juntaram ao movimento, pelos os que nos desafiaram como colega de profissão e não acreditaram na escolha, sabemos que têm o direito de optar, porém, nesse momento, nossa escolha foi e sempre será pautada no direito público em nome da coletividade e não no direito privado pautado no individual.

Lutamos amparados por um direito que é sabatinado pela Constituição Federal (CF/88), e o sistema nos puniu, retiraram de nós o que é mais sagrado, o direito de alimentar a mim e aos nossos, porém, nos reinventamos como diz Freire, enquanto tínhamos de um lado  o sistema que vinha com cortes, atacavam com mentiras e  os opressores mandavam ameaças, do outro, apareciam os artistas com poesia, música e alegria, uma parcela significativa da sociedade davam um voto de confiança, e dessa maneira segurávamos nas mãos uns dos outros e  o medo ia embora. Não nos dizimaram com gás, bomba e bala, mas tentaram nos enfraquecer tirando nosso alimento, nossas forças, porém, no ardor da angustia, do sol quente no caminho percorrido a cada amanhecer renascia nossa esperança e o pão de cada dia nunca faltou. O Salmos 23:1 foi realidade em nossas vidas “o senhor é o meu pastor e nada me faltará”.

Nunca fomos tão protegidos, em todos os atos muitos policiais estavam conosco, uns educados outros não, especificamente dia 5 de agosto de 2019 fizeram voos rasante em cima do nosso acampamento com arma apontada. Não sei qual o motivo, quero acreditar que era treinamento, mas... não era de espantar já que  na semana anterior na Assembleia Legislativa intitulada casa  do povo, e onde os trabalhos são aberto em nome de Deus sobre a proteção divina esses mesmos que nos protegiam não permitiram  que nossos colegas pudessem ter direito à alimentação naquele espaço, e quando a noite chegou o inverno mato-grossense os presenteou  com o frio de 14 graus, e os corpos não acostumados com o inverno sofreram as penúrias de passar a noite sem  cobertores para aquecer o corpo, a alma e mente dos que lutaram o dia inteiro. A maldade do sistema governamental nos fortaleceu.

Desse modo pergunto que Deus é esse no qual os representantes desse sistema têm a ousadia de invocar? Pois em salmos 41:1 diz: “bem-aventurado aquele que atende o pobre; o senhor o livrará no dia do mal”, em Mateus 22: 39 “E o segundo, semelhante ao primeiro mandamento é: amarás o teu próximo como a ti mesmo”.

Todo esse processo foi para que o GOVERNADOR MAURO MENDES cumprisse com uma Lei nº 510/13, aprovada em 2013.  Como classe trabalhadora que sou tenho a consciência e a certeza como dizia Júlio Cezar Martins Vieira (in memorian) mais difícil do que colocar uma lei no papel é fazê-la cumprir, vale ressaltar que isso procede principalmente quando é para beneficiar os trabalhadores. 

Desse modo, certa estou que houve muitos embates, avançamos um pouco, porém, o momento era de recuar para nos fortalecer e voltarmos às trincheiras, pois a luta é para a vida inteira. E como diz Guimarães Rosa “o que a vida quer da gente é coragem”.

 

Gizeli da Costa Leão

Professora formadora Cefapro

Primavera do Leste

 

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