ARTIGO /

Segunda-feira, 30 de Novembro de 2015, 21h:12

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A morte do Gigante

O lugar que antes era berço de várias cores, agora era monocromático e sem graça


Tiago Strassburger

Era um território de inquestionável beleza, no qual predominavam todas as cores e habitavam inúmeras formas de vida. Em meio àquela terra, havia um doce gigante que nunca dormia, ele não se sentia dono dali, mas era sim o responsável por toda a harmonia daquele ambiente e, gentilmente, ajudava direta e indiretamente todos que dele necessitavam.

Então, nesta terra, chegaram os homens, tão pequenos – e quase que inexistentes – em comparação ao gigante que, já acostumado com tantas outras criaturas por todos os lados, mesmo sem os conhecer, os acolheu e lhes ofereceu todos os benefícios que provia àquele lugar.

Com o passar dos anos, todos ali viveram bem, até que, mesmo tendo direito aos grandiosos privilégios, alguns daqueles homens não se deram por satisfeitos, então, se reuniram e, apontando ao gigante, disseram: “O que este gigante nos dá, ainda é pouco, ele ainda pode nos dar muito mais!” 

Com a ajuda de outros homens, decidiram, colocar naquele gigante algumas máquinas que haviam criado, para que pudessem captar a sua energia e canalizar de diferentes formas que fossem de interesse exclusivo tanto deles como de outros homens.

O gigante obviamente notou algo diferente, pois já não corria com a mesma liberdade e sentia que a sua força, mesmo intensa, já não era mais a mesma e mesmo ao se dar conta, sua benevolência era tamanha, que não se importou com aqueles aparelhos que lhe incomodavam, pensando que, o incomodo era pequeno perto de todo o bem que poderia propiciar àqueles homens.

Algumas daquelas máquinas, ao tirar energia do gigante, não produziam apenas o que os homens queriam, todo o processo de exploração gerava também uma matéria viscosa e nociva a eles, era toxico e até letal dependendo do contato, então, ao invés de a levarem para longe, começaram a esconde-la e apenas a acumulavam ao lado do gigante, mesmo sabendo que, com isso, ele também adoecia aos poucos.

O grupo de homens, ao perceber então as riquezas que adquiriam construíram novas engenhocas, que foram impostas ao gigante, que mesmo enfraquecido, ainda os atendia, mesmo sabendo que perderia ainda mais sua energia e que mais daquela indesejada matéria que lhe causava tanta dor seria expelida.

Certa tarde, enquanto aqueles homens contavam todo seu ouro, não perceberam que toda aquela substância marrom amontoada enfim entrava em contato com o gigante, que se antes aos poucos adoecia, agora, aos poucos passou a morrer, consequentemente matando tudo que há envolta. Antes, cristalino e cheio de vida, ia escurecendo e se preenchendo de morte.

O gigante estirado, sem vida, fez com que muitas daquelas criaturas ao seu redor também morressem. O lugar que antes era berço de várias cores, agora era monocromático e sem graça. Alguns homens, que recebiam o seu sustento de forma consciente, passaram a sentir fome e sede, enquanto os homens responsáveis se escondiam atrás de seu ouro e negavam a responsabilidade

Seus restos não podem ser escondidos, não bastasse o castigo de perder todos os benefícios que ele fornecia, agora, há um gigante morto que divide aquele lugar.

Ainda tentam reanima-lo, mas, mesmo que parte dele volte, jamais será o mesmo.

O que mais dói, é que o gigante jamais se recusaria em abastecer a população com o que fosse necessário, mas, precisava de cuidados, pequenos cuidados, que lhe foram negados, mesmo ele dando vários sinais.

Enquanto isso, outros gigantes ainda pedem ajuda.

Descanse em paz, Rio Doce

Tiago Strassburger

 

Administrador, Marketólogo, Comediante de Stand Up Comedy, Escritor e Editor Chefe da Revista Senso In Comum.

1 Comentário(s)
E o próximo é o Rio São Francisco. Há muito tempo dá sinais de agonia.
enviado por: Renato em 01/12/2015 às 07:24:40
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