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Sábado, 12 de Outubro de 2019, 09h:30

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Envolvimento na campanha de Bolsonaro explica manutenção do ministro do Turismo

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IstoÉ

Marcelo Álvaro Antônio arrow-options
Marcos Corrêa/PR - 2.7.19
O ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, foi indiciado em função do esquema de candidaturas laranja

O recado é do próprio presidente da sigla, deputado Luciano Bivar (PE): avisem a Jair Bolsonaro que ele está fora do Partido Social Liberal (PSL). Na última semana, o capitão reformado pediu a um apoiador para esquecer o PSL e Bivar, que segundo o presidente da República, “está queimado pra caramba”. Bivar, que cedeu a sigla para bancar a eleição de Bolsonaro no ano passado, respondeu à altura: “A fala dele foi terminal, ele já está afastado do PSL. Não disse para esquecer o partido? Está esquecido”, rebateu, endossando as palavras do deputado Alexandre Frota: “Se Bivar está queimado, Bolsonaro está carbonizado”. A postura do presidente é uma tentativa de se afastar do laranjal que tisnou a imagem do partido, responsável pela segunda maior bancada na Câmara, com 52 deputados, e dono de um fundo eleitoral de R$ 500 milhões.

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Desde fevereiro, as denúncias sobre candidaturas laranjas nos estados de Minas Gerais e Pernambuco já derrubaram o ex-ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República Gustavo Bebianno, desgastaram Bivar (PE) e colocaram o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio (MG) no centro de uma crise sem precedentes. As denúncias de que o laranjal que elegeu o ministro como o deputado federal mais votado de Minas também teria sido usado para carrear recursos para a campanha presidencial de Bolsonaro, desestabilizaram o partido, a ponto do presidente temer problemas jurídicos por conta dos malfeitos na prestação de contas do ministro e protegido.

Para evitar o desgaste, Bolsonaro quer se livrar urgentemente de Bivar com o objetivo de controlar a legenda, e, sobretudo, manipular sozinho o dinheiro do fundo, pensando na reeleição de 2022. Mas como está enfrentando resistências para defenestrar o deputado pernambucano, pensa em alternativas partidárias. Acostumado a pular de partido em partido – já mudou oito vezes de sigla -, talvez o ex-capitão consiga criar uma nova legenda: ressuscitar a direitista UDN ou fundar os “Conservadores” para abrigar o clã Bolsonaro. “Por enquanto vou ficar no PSL”, resumiu o presidente na quarta-feira 9, que pensa em levar com ele pelo menos 25 deputados do PSL .

Entre os próprios aliados, Bolsonaro perdeu espaço e foi ele que acabou chamuscado com a crise. “O presidente sair do PSL é como alguém morar sozinho e fugir de casa”, afirmou Major Olímpio, líder do PSL no Senado. Na Câmara, o líder do partido Delegado Waldir defendeu Bivar. “Como você fala do quintal alheio se o seu quintal está sujo?”, questionou o delegado goiano. Waldir lembrou que Bivar e Álvaro Antônio estão sob investigação em Minas Gerais e mandou um recado ao presidente: ele não pode se esquecer que o próprio filho, o senador Flávio Bolsonaro, também está nas malhas da Justiça no Rio por causa da “rachadinha” de salários de seus assessores, envolvendo o ex-motorista Fabrício Queiroz.

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O intocável Antônio

O que de fato alimentou a tormenta envolvendo o laranjal do PSL foi o indiciamento pela Polícia Federal mineira, na semana passada, do ministro do Turismo Álvaro Antônio, que acabou também sendo denunciado pelo Ministério Público por utilizar candidaturas falsas de mulheres dentro PSL de Minas Gerais – do qual Antônio é o ex-presidente estadual – para desviar irregularmente recursos do fundo eleitoral, formando o famigerado caixa dois de campanha. O indiciamento e a denúncia do MP ocorreu no âmbito da Operação Sufrágio Ostentação, que investiga o caso: foi imputado ao ministro e assessores os crimes de falsidade ideológica eleitoral, apropriação indébita de recurso eleitoral e associação criminosa, com pena de cinco, seis e três anos de cadeia, respectivamente.

Apesar de denunciado à Justiça, e com depoimentos e documentos contando ao seu desfavor, o ministro continua no cargo. Quando as denúncias surgiram, Bolsonaro afirmou que as acusações eram tíbias e que ele só seria demitido se ficasse comprovado o seu envolvimento com as falcatruas. Para o presidente, o indiciamento e denúncia oferecida à Justiça não são suficientes para a demissão. Ele prefere “queimar” o PSL e o presidente da sigla, mas faz vistas grossas a Álvaro Antônio. Afinal, por que o presidente está blindando o ministro? Por que ele ainda não foi demitido? Juristas lembram que os prazos para impugnações de contas de campanha já acabaram e que seria impossível o presidente ser responsabilizado por irregularidades na campanha no Estado. O próprio ministro da Justiça, Sergio Moro, a quem a PF está ligada, nega que a investigação atinja o presidente “Ele fez uma das campanhas mais baratas da história”, disse.

A PF mostrou, no entanto, que, em depoimento, Haissander Souza de Paula, assessor parlamentar de Álvaro Antônio à época, afirmou que “parte dos valores depositados para as campanhas femininas, na verdade, foi usada para pagar material de campanha de Marcelo Álvaro Antônio e de Jair Bolsonaro”. O presidente refuta a acusação com veemência. Numa planilha, nomeada como “MarceloAlvaro.xlsx”, apreendida pela PF, há referência ao fornecimento de material eleitoral para a campanha presidencial. Apesar de Antônio ter sido o coordenador da disputa eleitoral de Bolsonaro em Minas, o fornecimento é caracterizado, no documento, como “out”, o que os investigadores deduzem ser “por fora”, comprovando a existência de caixa dois, com as despesas não declaradas à Justiça Eleitoral.

Uma das candidatas laranjas, Cleuzenir Barbosa, também confirmou o esquema do laranjal em depoimento à PF e alegou que foi coagida por assessores de Antônio a devolver R$ 50 mil dos R$ 60 mil recebidos para a sua candidatura de fachada. “Esse era o esquema. O dinheiro viria para mim e retornaria para eles”, afirmou a professora aposentada de 47 anos que se mudou para o exterior por medo. O seu depoimento foi confirmado pelo advogado Leonardo Aureliano Monteiro de Andrade, responsável pela chefia jurídica da campanha do ministro, e pelos contadores Gustavo Henrique Nascimento e Danilo Jomaso Vaz, que assinaram a prestação de contas na Justiça Eleitoral. Mais: a deputada federal Alê Silva (PSL-MG) acusou o ministro de ameaçá-la de morte. Ela foi uma das responsáveis por reunir informações sobre o suposto laranjal. Um interlocutor de Álvaro Antônio “viajou 216 quilômetros para pedir para eu não levar adiante mais nada, que o ministro já estava ciente que fui eu que entreguei informações para denúncia ao Ministério Público”, disse Alê.

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Ao invés de tentar mudar o foco da crise, envolvendo Bivar no rolo do partido, o ex-capitão deveria afastar imediatamente o ministro pelo menos até a conclusão das investigações, como pedem os aliados, incluindo o Major Olímpio, líder do PSL. Bolsonaro não foi eleito para transigir com a corrupção, marca registrada de seus antecessores do PT. Mas, ao manter essa postura, cedo ou tarde trilhará pelo mesmo caminho tortuoso.

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