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Quarta-feira, 04 de Julho de 2018, 10h:54

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Deo Volente

Ao olharmos para a Carta de Tiago, percebemos o Apóstolo combatendo a falta de um cristianismo prático, da necessidade em traduzir os ensinamentos


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Paulo Froes

Esta expressão em latim significa “Se Deus Quiser.” Era usada pelos antigos cristãos de forma abreviada - DV., sempre no final de alguma carta, ou após pronunciarem seus objetivos e planos para o futuro. Muito mais do que um mero jargão da teologia da prosperidade, nem como uma expressão profética e mística, mas como uma verdadeira confissão de descanso e confiança no cuidado e condução do Deus da Providência.

Ao olharmos para a Carta de Tiago, percebemos o Apóstolo combatendo a falta de um cristianismo prático, da necessidade em traduzir os ensinamentos que aqueles cristãos guardavam no coração, em atitudes concretas, de uma fé transformadora no mundo, pois a fé sem obras é morta. Diante disso, Tiago nos leva a olhar para nós mesmos, nos desafiando a um autoexame, um olhar reflexivo sobre a prática de nossa fé e vida no mundo.

Aqueles cristãos viviam inúmeros desafios, desde a perseguição e sofrimentos externos, além de problemas entre eles mesmos. Tensões entre ricos e pobres, a maledicência e o mau uso da língua, além disso, Tiago trata sobre o mundanismo, um desafio que não é novo, já que desde sempre o cristão vive em uma rota de colisão com o mundo a sua volta.

Acima de tudo, o mundanismo é uma busca por prazer, é um encanto com um sistema de uma cultura hedonista, de um ser humano que reduz a sua vida em busca de realização pessoal, onde o tempo, recursos e tudo na vida visa suprir suas necessidades biológicas, sociais e existenciais, na ilusão da tão sonhada, autorrealização. Mas Jesus adverte em Lucas 12.13-21, que a vida de um ser humano não consiste na abundância dos bens que ele possui.

Portanto, mundano é aquele que tem Deus, não como um fim onde se quer chegar, mas usa Deus como um meio para conseguir o que deseja, ou como aquele que tem a obrigação de resolver seus problemas pessoais e egoístas.

Como Tiago trabalha questões práticas de grande relevância para a vida do cristão contemporâneo, a reflexão sobre como lidamos com nossos bens e finanças é fundamental para refletirmos sobre as prioridades que cativam o nosso coração. A complexidade da vida na atualidade exige planejamento e um constante aperfeiçoamento para que coisas novas aconteçam na caminhada. No entanto, o que se vê em geral, é que o povo de Deus espera muito pouco, somos falhos em planejar e sonhamos muito baixo. Não é o planejamento em si que Tiago está combatendo, mas o fato de planejar o futuro deixando Deus de lado. O grande problema do ser humano contemporâneo é a ideia equivocada de se achar autossuficiente, a ilusão de que somos capazes de gerir a própria vida de forma autônoma.

O ateísmo em seus pressupostos marxistas e conceitos filosóficos anti-Deus, combate a ideia de um Deus criador e sustentador de toda a criação, que se revela em sua palavra e é presente na história do ser humano. Embora seja uma discussão pertinente, mas desgastada, pois o grande desafio para a Igreja de Cristo em nosso tempo é lidar com o ateísmo prático, ou funcional, pois este afeta os cristãos dentro da igreja. O ateu prático, ou funcional, crê em Deus, ele serve a Deus de maneira piedosa, está envolvido nas atividades na casa de Deus, mas na prática não leva Deus em consideração em sua vida pessoal.

Paulo menciona em sua Carta a Tito 1.16, que muitos afirmam que conhecem a Deus, mas por seus atos o negam, estes são detestáveis, desobedientes e desqualificados para qualquer boa obra. Para estes, Deus é apenas um conceito teórico que não alcança a vida, as decisões, bastam-se a si mesmos. Tristemente muitas vezes nos vemos agindo dessa maneira, e colhendo frutos amargos por conta disso. Como disse o teólogo Francis Schaeffer, “A única coisa que o homem sabe fazer a si mesmo é se auto prejudicar”.

Embora a Bíblia não proíba a riqueza quando esta é fruto de um trabalho honrado e abençoado por Deus, como disse o sábio Salomão, “As mãos preguiçosas empobrecem o homem, porém as mãos diligentes lhe trazem riqueza.” Pv 10.4. No entanto, para Deus é importante a fonte da renda, de onde vem o pão que colocamos em nossa mesa, e também como gastamos aquilo que ganhamos. Uma atitude consumista e de ostentação diante de tantas injustiças perto de nós, não harmoniza com o evangelho do Cristo que nos desafia a uma vida simples. Como peregrinos neste mundo, estamos a caminho da eternidade, e estes valores eternos precisam ser percebidos em nossa caminhada.

Em sua argumentação sobre a insensatez de uma vida sem Deus, Tiago leva-nos a refletir sobre a fragilidade de nossa vida, "Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois, apenas, como neblina que aparece por instante e logo se dissipa. Em vez disso, devíeis dizer: Se o Senhor quiser, não só viveremos, como também faremos isto ou aquilo." Tiago 4.14-15

Segundo Tiago 1.9-11, o cristão pobre deve gloriar-se em sua dignidade e o rico em sua insignificância, pois a riqueza é efêmera e transitória e não deve ser o que possuímos que determina a felicidade do povo de Deus neste mundo, mas o próprio Deus, pois como dizia Francisco de Assis, Deus é nosso tudo.

Entretanto, o povo de Deus pode caminhar neste mundo com uma fé viva, pois em meio as nossas lutas e aflições, Deus dispensa sua abundante graça, Tg 4.6, e esta graça nos basta, 2Co 12.9, e estamos certos de que esta graça é melhor do que a vida, Sl 63.3. Que Deus seja o centro e o mais alto propósito de nossa existência, e que nossa história seja o palco para o cumprimento da boa, agradável e perfeita vontade de Deus. Rm 12.3. Deo Volente. Rev. Paulo Froes

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